A família em isolamento social

08/04/2020

É certo que vivemos um momento difícil no mundo inteiro e não adianta negá-lo.

Um inimigo invisível chegou para virar a vida da maioria de nós do avesso, obrigando-nos ao isolamento social, e levando a grandes mudanças profissionais, sociais e pessoais. Mas também a uma grande mudança dentro da dinâmica familiar.

 

Nada está igual. Não somos casais da mesma maneira, não somos pais da mesma maneira... e nem as crianças são crianças da mesma maneira.

 

 

Debaixo do mesmo teto há toda uma conjugação de papéis nunca vista. Fazer teletrabalho, cozinhar, limpar, cuidar de crianças, proporcionar-lhes atividades ou trabalhos solicitados pela escola, manter rotinas, entre tantas outras coisas. A incógnita que nos persegue a mente cada vez que vamos às compras, e se trazemos o dito cujo connosco. Ou o ligeiro pânico de cada vez que levamos as crianças à rua para respirarem um bocadinho - “ninguém mexe em nada”, “não ponhas a mão na boca”, “Espera! Põe gel nas mãos!”. Juntando a isso, ter de lidar com o receio pela saúde dos nossos, que se encontram distantes; as saudades de os ver, da rotina ou de algumas coisas que ficaram para trás; a frustração para conseguir cumprir com todos os papéis; a preocupação de muitos com as contas a acumular e sem luz ao fundo do túnel; e a ansiedade pela incógnita que vivemos acerca do amanhã. Famílias com membros que se encontram na linha da frente, uns com medo do que levam para casa, outros com medo do que pode acontecer cada vez que saem pela porta da frente.

 

A noção de que para os nossos filhos também tudo está diferente. Acabaram as idas aos parques andar de baloiço e de escorrega, deixaram de ver e brincar com os amiguinhos com que se relacionavam mais de oito horas por dia, acabaram-se as visitas familiares, andar de bicicleta, jogar à bola e foram privados de contacto com aqueles que também fazem parte da sua educação.  E ao longo do tempo vão reagindo a tudo isto, cada um à sua maneira. Talvez nem falem muito sobre isso, mas os seus comportamentos podem alterar-se e a mostrarem, de outra forma, que estão mais sensíveis.

 

Talvez algumas dores de cabeça ou dores de barriga fora de contexto, mais birras ou mais procura de atenção, alguns retrocessos em coisas que já tinham atingido a sua autonomia, entre outras formas de pedir atenção. Um doí-doí que pode parecer ter uma dimensão exagerada, pode vir acompanhado de um “tenho saudades dos meus amigos”, “tenho saudades dos avós”, “não quero ter o bichinho”, “quando é que o bichinho se vai embora”, e para alguns, algum medo da morte de um familiar ou até de si mesmo. E tantas perguntas… a língua de perguntador tão natural em qualquer criança tem dúvidas sobre tudo o que ouve, sente ou vê.

 

Conversar com as crianças é importante para que se sintam ouvidas e compreendidas, permitindo um momento para expressarem o que sentem, e transmitindo esperança e segurança.

Incluí-los nas decisões das planificações dos seus dias também pode ajudar a dar-lhes o sentido de que também fazem parte e são peça fundamental nesta luta. 

 

 

Além de tudo isto acrescentar a vivência em casal 24/24h. Uma realidade a que muitos não estão habituados. A pressão de tudo o que se passa, juntando a inevitabilidade de se olharem de frente pode trazer mais conflitos, mais discórdias e mais impaciência.

Somos seres humanos e gerirmos-nos a nós mesmos também não é fácil. Mas é perfeitamente normal. É natural.

 

São tempos que nos pedem mais resiliência, mais paciência, mais compaixão e mais união. São tempos que nos pedem para nos apoiarmos mais uns nos outros, ganharmos mais hábitos de partilha de sentimentos, de darmos a mão, mesmo que virtualmente, para que o outro saiba que não está sozinho, e também, tempo de nos permitirmos a pedir ajuda, pedir um abraço de quem está perto, ou uma palavra amiga de quem está longe. É tempo de não só amarmos mas falar de amor. É tempo para mais aceitação acerca do que estamos a viver, do que não podemos controlar, e do que está nas nossas mãos conseguir fazer.

           

O planeamento familiar num momento destes, tão sobrecarregado, é fundamental.

Desde o teletrabalho, os trabalhos das crianças, às lidas da casa, mas sem excluir o vosso momento de lazer. Momentos de lazer vossos, enquanto indivíduos, de casal e em família.

Planeá-los pode ser estranho, se pensarmos num planeamento como obrigação e como regra a cumprir, principalmente se for pouco realista, e sem ter em conta o contexto individual de cada um. Desta forma pode fazer com que a ansiedade e a frustração tome conta de nós.

 

Planear é refletir sobre. E pode proporcionar mais organização de trabalho, diminuir imprevisibilidades, principalmente nas crianças, dar um sentido ao dia-a-dia, e ajudar a não esquecer dos momentos de lazer para todos. Refletir sobre que momentos de lazer ou forma de cuidares de ti são esses. O que te dá prazer e faz sentido para ti, para ambos, ou para todos em família. Que momento escolhes para ti (meditação/yoga, exercício físico, ler, escrever, pintar, etc), que tipo de momento escolhem em casal (uma vez por semana, jantar mais tarde, só os dois; ver um filme; conversar na varanda; namorar), que tipo de momento juntos em família e de preferência de forma participativa (jogos de família; ser criativos com materiais e tintas; fazerem bolos; trocar mesa por um piquenique à luz de velas no meio da sala; montar uma tenda e brincar ao que eles quiserem; etc). Um planeamento leve, de acordo com a vossa realidade, sem excesso de expectativas ou sentido de obrigação pode fazer a diferença.

 

Pára, escuta e olha para as sensações do teu corpo e pensamentos.

Estes contêm respostas fundamentais para decifrar aquilo que te possa tornar mais ansiosa e perturbar em demasia, podendo assim prevenir em momentos futuros, alterando possíveis situações que possam estar a desencadear essas reações. Quando percebes que não estás a conseguir impedir níveis de ansiedade mais altos procura, se possível, o distanciamento dentro do próprio isolamento, para que possas baixar o nível (faz respirações mais profundas, desfoca-te da situação, ou procura algo prazeroso que possas fazer no momento, como ouvir música). Afastares-te, por momentos, da situação pode ajudar a que não haja um descontrolo maior.

 

Uma sugestão da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), e que podes adaptar em família, é construir uma escala de visualização da ansiedade, seja um semáforo (verde, laranja, vermelho), ou um termómetro (frio, morno, quente, muito quente), onde todos constroem a sua, partilham e falam sobre os pontos comuns e semelhantes. Podem mais tarde voltar a ele e refletir sobre o que mudou ou se manteve.

           

 

Reduzir as vezes que acedes aos noticiários pode ajudar a diminuir ansiedade.

Mantém-te informada através de fontes oficiais de informação, como a DGS, OMS e OPP.

 

Aumentar as vídeo chamadas com familiares e amigos pode aumentar a proximidade.

Temos a vantagem de ter acesso ao mundo digital que até podemos manter o jantar de domingo à noite em família. Por vezes o isolamento pode distanciar fisicamente as pessoas mas aproximar gerações. O medo ou a preocupação pelo outro pode aumentar a procura e fortalecer laços.

 

Concentra-te no aqui e no agora.

Devagar e ao teu ritmo encontrarás os teus recursos para lidar com toda esta situação e, dentro do possível, transformar o que podees em algo que possa preencher-vos enquanto família, aproximar-vos, e cuidarem-se.

 

E no caso de verificarem que não estão a conseguir lidar com a situação, com a ansiedade, com a tristeza, ou com situações mais complexas que infelizmente é uma possível realidade a que estamos sujeitos, é importante procurar ajuda.

Muitos psicólogos e psicoterapeutas estão disponíveis para te ajudar nesta fase por valores mais acessíveis, e podes sempre contar com o aconselhamento psicológico na linha saúde24 se vivenciares algum momento de crise. Em anexo deixo-te três documentos da Ordem dos Psicólogos Portugueses:

 

 

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