À Conversa com Vera Gaspar (Escolinha da Kika)

Na rubrica "À Conversa com..." pretendemos entrevistar pessoas que consideramos que trazem valor acrescentado ao mundo da maternidade, em diversos âmbitos.

 

Um dos assuntos que nos é particularmente querido, com que nos preocupamos genuinamente, diz respeito às questões relacionadas com a amamentação / alimentação infantil. Neste contexto, são muitas as mães que nos têm procurado com o objectivo de perceber como podem conciliar a amamentação com o regresso ao trabalho, a manutenção do aleitamento materno exclusivo, mesmo após a entrada do bebé no berçário, e sobre a introdução da alimentação complementar.

 

Nestas circunstâncias acreditamos que os berçários e creches, e as equipas que os compõem, podem desempenhar um papel fundamental. Por isso, fomos falar com a directora da Escolinha da Kika, Vera Gaspar, por conhecermos esta escola em cujo projecto acreditamos, e que deveria servir de modelo para outras. 

 

O projecto educativo da Escolinha da Kika para 2015-2018 é "À Distância de um Beijo". Como é que este conceito se reflecte no dia-a-dia da creche?

A escolha deste tema recaiu sobre uma experiência bastante pessoal que se tornou progressivamente no caminho que mais fazia sentido implementar na Escolinha da Kika. Desde que engravidei que me interessei pela temática do babywearing e não tardou até que me deixasse envolver por toda a filosofia da vinculação, educação consciente, humanismo que envolvem estes assuntos. Eram já temas para os quais tinha uma grande afinidade e que de alguma forma fazia por incluir no nosso projecto, porém observava-os pela primeira vez por uma nova perspectiva: a perspectiva de Mãe! Essa foi um mudança crucial para a evolução da Escolinha da Kika em direcção à educação consciente. E a escolha do “À Distancia de um Beijo” fazia todo o sentido uma vez que queríamos mostrar a todos de que modo pretendíamos “carregar” todas as crianças e famílias durante a sua passagem pela Escolinha.

O conceito está assim presente principalmente no modo de estar da equipa e na sua relação com as famílias e crianças. Exemplos disso são a nossa preocupação com o período de adaptação em que as famílias são recebidas de braços abertos dentro da escola e onde tentamos passar a mensagem de que em qualquer momento serão bem vindas no decorrer do ano letivo, sem restrições ou constrangimentos; a forma como vemos no toque, no colo, na afectividade o primeiro e principal caminho para chegarmos a cada criança; a empatia que fazemos por criar em todas as relações, seja entre adulto ou crianças, famílias ou equipa; a preocupação com a criança na sua individualidade. Em suma, mais do que o estabelecido num conjunto muito definido de práticas, esta filosofia transformou-se num modo de estar dentro da Escolinha da Kika. E é isso que neste momento começa a dificultar a escolha do tema dos próximos três anos uma vez que este é o ultimo ano lectivo em que o “À Distancia de um Beijo” vigora.

 

A Escolinha da Kika acredita nos benefícios da amamentação. De que forma(s) é que promovem o aleitamento materno?

Antes do despertar para a nossa filosofia actual existia já uma preocupação em nos mostrarmos disponíveis para receber bebés amamentados e fazíamos por transmitir essa possibilidade aos pais, pelo que desde que abrimos portas que o convite para as mães levarem leite materno ou se deslocarem à escola para amamentar esteve em cima da mesa. Mas durante os dois primeiros anos eu sentia que quando nos chegavam, os bebés vinham já com leite artificial ou alimentação complementar introduzidos e não havia sequer oportunidade de ver esse convite concretizado. Comecei então a perceber que a nossa principal missão teria de passar pela sensibilização da importância do aleitamento materno e foi aí que começámos a assistir a algumas mudanças. O primeiro objectivo seria sempre comunicar às famílias que nos visitavam ainda durante o período de amamentação que a escola não é nem deve ser o motivo pelo qual o bebé devia deixar de ser amamentado, independentemente de ficar na Escolinha da Kika ou de ir para outra instituição; de seguida manifestávamos a possibilidade da mãe ir amamentar às nossas instalações e/ou poder levar o leite materno para ser oferecido ao bebé durante a sua permanência na creche. A partir daqui começámos a ver famílias a ter uma perspectiva em relação à alimentação nos primeiros meses já bastante diferente, pois o problema era que elas nem sequer consideravam que esta hipótese seria possível.

O contacto que entretanto fui tendo com algumas Conselheiras de Aleitamento Materno (CAM) e com o IBFAN possibilitou dinamizar alguns workshops direccionados a mães, no âmbito da amamamentação, extracção de leite materno, regresso ao trabalho, etc. Entretanto tirei o Curso de CAM e a par da sensibilização, do convite ao aleitamento materno e dos workshops, a Escolinha da Kika passou a ter disponível o apoio direto ao aleitamento materno junto das mães da escola e de restantes famílias da nossa comunidade.

 

A Escolinha da Kika recebe bebés desde os 3 meses. De que forma é que a equipa apoia as mães que desejam continuar a amamentar, mesmo quando se têm que separar precocemente dos filhos para regressar ao trabalho?

Essencialmente através do encorajamento e apoio nessa escolha. É uma decisão que tem de partir da família e fazer sentido principalmente para a mãe e para o bebé. Quando sabemos que vamos receber um bebé amamentado a nossa primeira preocupação é saber qual é a expectativa da família em relação à continuidade do aleitamento materno para que depois possamos estabelecer toda a dinâmica entre a escola e a família – perceber se a mãe terá hipótese de se deslocar, se já está familiarizada com a extracção de leite, se já tem stock, etc. Quanto mais cedo toda esta estrutura estiver definida mais tranquilas as mãe ficam, o que é fulcral para todo o processo. Entenderem que temos experiência em receber bebés amamentados em exclusivo e que podemos administrar o leite materno de diversas formas é o que normalmente deixa as famílias mais tranquilas, pois o principal medo é que o bebé que apenas esteja acostumado a ser amamentado rejeite outras formas de administração do leite da mãe e que passe fome! Mas isto acontece principalmente porque apenas é considerada uma forma de oferta que é a mais tradicional – o biberão. Mas temos inúmeras outras opções que normalmente os pais desconhecem e que já colocamos em prática: técnica do copinho, colher, copo evolutivo, seringa, finger feeding…

 

A OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses e a sua continuidade nos anos seguintes, pelo menos até aos 2 anos. Qual a sua percepção sobre esta realidade entre os bebés que frequentam o berçário e a creche da Escolinha da Kika?

Actualmente temos crianças de todas as salas que são amamentadas – desde o berçário até aos 3 anos! E verificar isto é um orgulho, pois tenho noção de que é fruto do nosso projecto de promoção do aleitamento materno. Por um lado acabamos por reunir um público alvo que partilha desta preocupação e, desse modo, naturalmente o número de famílias que praticam a amamentação exclusiva e posteriormente prolongada veio a aumentar. Mas por outro lado creio que algumas dessas famílias também o fazem porque pudemos de alguma forma contribuir para o sucesso da sua história de amamentação.

 

Quando, por volta dos 6 meses, se inicia a alimentação complementar, é conhecida a preocupação da Vera e das restantes profissionais desta instituição em educar os bebés para uma alimentação saudável. Quais os factores que contribuem para o sucesso neste âmbito?

O principal factor foi sem duvida a escolha da Bebé Gourmet como nosso parceiro de catering. Foi um “casamento” que iniciou logo no ano de abertura da escola, após uma experiência terrível com um outro fornecedor, que apenas durou cerca de 3 semanas. A Bebé Gourmet tinha também acabado de nascer e após o “trauma” que foi a primeira empresa facilmente me deixei maravilhar pela oferta que faziam. Compreendi mais tarde o que moveu aquelas três mães a criar uma marca que tivesse as preocupações que entretanto eu passei também a ter e não demorou até que as nossas filosofias se complementassem de um modo perfeito. Portanto no fundo, mais uma vez, o papel de mãe teve um contributo fundamental para valorizar ainda mais estas preocupações.

 

O que a motivou a tornar-se Conselheira em Aleitamento Materno?

Foi essencialmente sentir a falta de apoio que existe, infelizmente, em todas as áreas onde se lide com crianças. Já sentia isso no meu percurso enquanto directora como referi antes, mas senti ainda mais enquanto mãe inserida em comunidades de mães (nas redes sociais principalmente). Desde sempre que fiz por saber mais acerca de todos os assuntos que me despertam interesse – exploro tudo muito a fundo e considero-me uma pessoa bastante informada. Isso fez com que me viesse a tornar bastante activa em alguns fóruns e grupos de mães, onde acabava constantemente por dar algum contributo a quem precisava de apoio. E a temática da amamentação é uma das que se encontra mais envolta em desinformação, em crenças e mitos sem qualquer fundamento – tudo factores que frequentemente levam ao desmame precoce, à desistência por parte das mães, à cedência facilitada do leite artificial e outros substitutos. Portanto, acabava por já ter de alguma forma iniciado essa minha jornada de conselheira! Mas estando à frente de uma instituição e querendo ter como bandeira este projecto, obter a credibilidade através de um curso reconhecido pela OMS/UNICEF fazia todo o sentido.

 

Que conselhos daria à direcção de outros berçários e creches para os ajudar naquele que também deve ser o seu papel, de promover a amamentação?

O de se informarem muito!!! Procurarem formações, terem contacto com CAMs que possam dar apoio nas suas instalações, fazerem a ponte entre os pais e os profissionais que estão efectivamente preparados para os apoiar nas dúvidas e dificuldades na amamentação, de passarem por cima das suas crenças ou experiências pessoais e basearem-se em factos para poderem ajudar mães e bebés. E fundamentalmente o de ACEITAREM a amamentação. Pode parecer inacreditável mas existem muitas escolas onde os profissionais que cuidam dos bebés se recusam a oferecer leite materno ou sequer a receber bebés que ainda não tenham iniciado alimentação complementar, independentemente de terem 6, 4 ou 3 meses. Mas para isso mudar têm de ser antes de mais as direcções a partilharem dessa preocupação, daí ser um dos meus desejos poder vir a organizar acções de sensibilização exclusivamente direccionadas às equipes de outras creches.

 

 

 

 

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