Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama

Hoje celebra-se o Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama. Este dia é marcado por campanhas e acções de sensibilização sobre a doença, com o intuito de apelar a mudanças comportamentais e de informar sobre a prevenção, o rastreio, o diagnóstico e o tratamento do cancro da mama.

 

Em 2014, os tumores malignos foram responsáveis por 25% das mortes em Portugal, imediatamente a seguir às doenças do aparelho circulatório (31%). Apesar de se verificar um aumento no número de novos casos de cancro, a probabilidade de morrer entre os 30 e os 69 anos por cancro apresenta globalmente uma tendência de decréscimo, a que se associa, por um lado o envelhecimento da população, e por outro uma maior sobrevivência ao cancro e a outras doenças.

 

Proporção de óbitos por causas de morte mais frequentes no total de óbitos, Portugal, 2014

Figura retirada de: Instituto Nacional de Estatística (2014). Estatísticas de Saúde 2014 (edição 2016, p. 147).

Portugal: Instituto Nacional de Estatística, I.P.

 

O cancro da mama é o tipo de cancro mais comum entre as mulheres, correspondendo à segunda causa de morte por cancro, no sexo feminino.

 

Em Portugal são detectados anualmente cerca de 6000 novos casos de cancro da mama, e 1500 mulheres morrem com esta doença. Neste contexto, cerca de 1% de todos os cancros da mama ocorrem no homem.

A Importância da Detecção Precoce

 

Os rastreios para doenças oncológicas têm vindo a consolidar o seu papel, e a aumentar a cobertura geográfica, particularmente nos casos do cancro da mama e do colo do útero, permitindo detectar a doença em fases subclínicas, com o objectivo de reduzir a mortalidade através de um diagnóstico precoce. A evidência científica tem demonstrado que a instituição do rastreio pode conduzir a uma redução das taxas de mortalidade que, no caso do cancro da mama, anda na ordem dos 30%.

 

 

Factores de Risco

 

Não é conhecida uma causa específica para o cancro da mama. Contudo, a investigação tem revelado que há mulheres que apresentam um risco acrescido para o desenvolvimento desta doença, a que podem estar associados alguns factores:

  • Idade – a probabilidade de desenvolver cancro da mama aumenta com a idade

  • Antecedentes pessoais de cancro da mama

  • História familiar de cancro da mama

  • Alterações mamárias

  • Alterações genéticas

  • Primeira gravidez depois dos 31 anos

  • História menstrual longa

  • Terapêutica hormonal de substituição

  • Raça – o cancro da mama ocorre com mais frequência em mulheres caucasianas

  • Obesidade após menopausa

  • Inactividade física

  • Bebidas alcóolicas

 

Diagnóstico

 

Apesar da consciencialização crescente para estes factores de risco, verifica-se que muitas mulheres com cancro da mama não apresentam fortes factores de risco para a doença. Assim, é importante que fale com o seu médico sobre o seu risco pessoal, e que realize rastreios para o despiste da doença. Estes devem ter sempre por base uma avaliação individual e podem consistir em:

  • Exame clínico da mama (por palpação)

  • Mamografia – a Direção-Geral da Saúde (DGS) preconiza a realização de mamografia a cada 2 anos nas mulheres entre os 50 e os 69 anos, embora em algumas regiões do país a população-alvo inclua mulheres a partir dos 45 anos

  • Ecografia

  • Ressonância magnética - pode ser solicitada em conjunto com a mamografia

  • Biópsia – quando é necessário retirar tecido ou líquido da mama para análise

  • Exames adicionais – podem ser solicitados outros testes laboratoriais, no caso de cancro, para delinear adequadamente o plano de tratamento

 

Sinais de Alerta

 

Se verificar alguma alteração na mama ou no mamilo, algum nódulo ou espessamento da mama, alteração na sensibilidade do mamilo, diferença no tamanho ou forma da mama, retracção do mamilo, secreção ou perda de líquido pelo mamilo, ou alterações cutâneas nesta região, consulte o seu médico.

O Cancro da Mama na Primeira Pessoa

 

Para marcar esta data resolvemos falar com quem não só viveu esta doença, como lhe sobreviveu com determinação e um sorriso na cara! A Ana Matias é autora do blog O meu cancro dava um blog e aceitou participar nesta nossa iniciativa, que desde já muito agradecemos.

   

O que é que uma pessoa sente quando é confrontada com um diagnóstico tão brutal, como o cancro da mama?

 

Desde o momento em que desconfiamos que algo está errado entramos na maior montanha russa emocional que alguma vez pudemos imaginar. Até ao último momento há a esperança de que seja apenas um susto e de que os exames confirmem que afinal era algo benigno. Ao receber o diagnóstico de cancro o mundo desaba. Naturalmente surge o medo de morrer, de não estar cá para ver os nossos filhos crescer. Passamos pela fase de revolta, do “porquê eu?”, da angústia. A fase dos tratamentos para mim esteve envolta numa névoa, em que as emoções ficaram para segundo plano, pois estava concentrada em aguentar os tratamentos e em sobreviver. Em algumas fases parecia tudo apenas um pesadelo. Chegou a acontecer-me acordar a meio da noite e, ao ver-me ao espelho careca, ter um choque e perceber que era mesmo verdade. Acho que sem dúvida o medo é o sentimento dominante a partir do momento em que recebemos um diagnóstico de cancro

 

 

No seu caso, existiam factores de risco para o desenvolvimento da doença?

 

Eu sou um dos casos em que nada faria prever que viesse a desenvolver uma neoplasia da mama. Não tenho historial familiar, sigo um estilo de vida saudável tendo cuidado com a alimentação e praticando desporto e amamentei a minha filha, factor que leva também a uma redução de risco. Desde nova que faço os exames de rotina anuais que incluíam ecografia mamária e que nunca mostraram existir razão para alerta.

 

 

O que a levou a procurar o médico e como lhe foi comunicado o diagnóstico? O que se seguiu a partir daí?

 

Na sequência de uma segunda gravidez que infelizmente não chegou a termo comecei a sentir que algo não estava normal na mama direita. Sentia uma sensação de peso, dor ao toque e rigidez no tecido mamário em todo o quadrante inferior (não se sentia propriamente um nódulo, como tipicamente imaginamos). Procurei a minha médica que me encaminhou para uma ecografia de controlo, porém sem grande alarmismo pois, tal como eu, pensava ser apenas consequência do turbilhão hormonal pelo qual o meu corpo havia passado.

 

Na ecografia o médico disse logo que não gostava nada do que estava a ver e que eu deveria fazer uma ressonância magnética e biópsia da mama. Percebi que era grave quando ele começa a procurar vagas para essa mesma tarde. Seria o próprio médico a entregar-me os resultados em mão. Porém, após três semanas de espera decidi que iria buscar os exames pois emocionalmente não aguentava esperar mais. Requisitei os exames na recepção e fui com o meu marido almoçar num local ali perto. Quando abri o envelope a palavra carcinoma destacou-se imediatamente. Costumo brincar dizendo que os senhores do restaurante ainda hoje andam às voltas com a receita de bacalhau com natas depois de me verem chorar compulsivamente em frente ao prato onde apenas havia depenicado uma ou duas garfadas.

 

Nesse mesmo dia liguei à minha médica que me encaminhou para a unidade de mama onde sou seguida. As semanas seguintes foram passadas em médicos e hospitais. Foram feitos exames e mais exames de modo determinar o tipo de tumor, o seu estadio (ou seja, se o tumor se havia disseminado para outros locais do corpo), o seu tamanho e localização exacta, de modo a que os médicos pudessem determinar qual o melhor plano de tratamento a seguir.

Antes de iniciar o tratamento foi-me dada a oportunidade de fazer preservação de fertilidade, algo que desconhecia ser opção nestes casos e ser gratuito para doentes oncológicos.

 

Depois seguiram-se 10 meses de tratamento. Fiz 14 sessões de quimioterapia ao longo de quase 6 meses, cirurgia com tumorectomia e esvaziamento axilar e 25 sessões de radioterapia. Para além disso faço (e farei durante os próximos 5 a 10 anos) tratamentos de hormonoterapia que induzem a menopausa, procedimento necessário por se tratar de um cancro hormonodependente. 

 

 

Conhecemos a Ana como uma mulher alegre, com sentido de humor e cheia de força. De que forma é que se consegue manter um sorriso quando esta doença nos atinge?

 

Para mim o sentido de humor foi a arma mais valiosa para lutar contra o cancro. Nem sempre é fácil manter o sorriso. Os tratamentos são extremamente agressivos e têm efeitos secundários muito debilitantes e que persistem com o passar do tempo (ainda hoje sinto alguns dos efeitos da quimioterapia que já terminou há seis meses). Para além disso temos medo. Medo da morte, medo que o cancro nos persiga para o resto da vida. Quem lê o que escrevo no blog pode pensar que levei isto tudo como uma grande brincadeira e que foi fácil. Mas todo este processo foi o mais difícil porque alguma vez passei. E também chorei, também gritei e me revoltei contra a doença. Porém depressa percebi que dessa forma a batalha ia ser ainda mais dura. Que se conseguisse sorrir e aproveitar aquilo que ainda tinha de bom, talvez tudo isto pudesse ser mais fácil. Com o cancro aprendi também a valorizar de outra forma as pequenas coisas boas da vida. O tempo passado com a família e os amigos foi uma delas. Tenho a sorte de ter um marido que esteve sempre ao meu lado e me ajudou a manter o sorriso, uma filha linda que todos os dias me diz que gosta muito de mim e amigos fantásticos que me apoiaram neste caminho nunca me deixando sentir sozinha.  Essencialmente o segredo é agarrarmo-nos a tudo o que a vida tem de bom. À nossa vontade de viver. E para viver há que sorrir.

 

 

A Ana é mãe. Como é que se explica a uma criança de 2 anos que a mãe está doente? Onde é que se encontram as forças necessárias para conciliar os diferentes papéis que desempenhamos (mulher, mãe…), em simultâneo com os tratamentos?

 

Quando recebi o diagnóstico a minha filha tinha 2 anos. Nesta idade as crianças não têm presente o conceito de doença grave e muito menos de morte. Não houve um momento específico em que lhe explicássemos o que se passava. Achámos que na cabeça dela poderia gerar-se alguma confusão. Ficámos atentos e conversámos com quem acompanhava a nossa filha diariamente na creche a qualquer sinal de alerta que surgisse no seu comportamento.

 

Continuámos a nossa vida normal dentro do que nos foi possível. Quando rapei o cabelo fizemo-lo em casa e foi uma grande festa. No fim ela apenas me passou a mão pela cabeça e disse que eu estava bonita. A falta de cabelo nunca foi algo estranho para ela.

 

A fase da cirurgia foi a mais crítica pois tinha que ter algum cuidado extra. Aí mostrei-lhe uma das cicatrizes mais pequenas e expliquei que, por causa do dói-dói, tínhamos que ter cuidado nas brincadeiras e no colinho. Ela colaborou muito bem e apenas pedia umas três vezes por dia para verificar a cicatriz, só para ter a certeza que eu não a estava a enganar e ainda estava lá. Quando as cicatrizes da mama ficaram visualmente menos chocantes mostrei-lhas. A estratégia foi sempre lidar com tudo com naturalidade sem dar demasiados pormenores que não seriam compreendidos por uma criança tão pequena.

 

A força para conciliar tudo vem simplesmente da nossa vontade de viver. Não podia desaparecer durante um ano para ir fazer os tratamentos. A minha filha precisa de mim e do pai presentes e sei que, ao manter a normalidade da nossa vivência familiar, a doença teve o menor impacto possível nela. E essa foi uma das minhas maiores preocupações desde o início. Que para a minha filha este fosse apenas o ano em que a mãe teve um corte de cabelo alternativo. Manter o meu papel de mãe também me ajudou a ultrapassar a fase dos tratamentos de melhor forma. Costumo dizer que a minha filha não me deu espaço para “mariquices”. Se para ela era dia de dançarmos aos saltos, pouco importava se tinha sido dia de quimioterapia ou não. Contudo não sou uma super mulher e tive que abdicar um pouco da parte profissional para conseguir manter o meu papel no seio familiar que para mim era prioritário. Se fosse hoje faria tudo da mesma forma.

 

 

O que é que uma pessoa que está a viver momentos tão difíceis como a luta contra o cancro espera dos outros? Vivemos numa sociedade em que, infelizmente, olhamos muito para nós mesmos, e olhamos para os outros mas nem sempre os “vemos”. Como é que podemos ajudar? Como é que alguém que está a passar pela doença gostaria que os outros se comportassem?

 

O confronto com uma doença como o cancro faz-nos perceber um pouco melhor os outros. Há uma reorganização das nossas relações pois, se por um lado algumas pessoas que achávamos estar perto de nós nem sempre sabem lidar com a nossa doença e seguem pela via que lhes é mais confortável, a do afastamento, outras surgem na nossa vida de forma surpreendente e criam-se novos laços para a vida.

 

Algo que me incomodava bastante eram os olhares na rua (tenho inclusive um post no blog sobre esse assunto). Optei por andar de careca descoberta pois nunca me senti confortável com lenços na cabeça. E cheguei a receber olhares que passavam do olhar de pena ao olhar de reprovação, como se fosse horrível que eu tivesse a ousadia de mostrar ao mundo que o cancro existe. As pessoas têm medo de falar e de ver de perto que o cancro existe. Sinto também algum desconforto por parte dos outros quando me ouvem falar de cancro com naturalidade. Era bom que ultrapassássemos estes tabus e que o cancro deixasse de ser “aquela doença” e passasse a ser chamado por aquilo que é.  Vamos falar sobre cancro!

 

Quando o cancro era visível por estar careca fui várias vezes abordada na rua por sobreviventes que quiseram partilhar comigo o seu sucesso. Sempre gostei de ouvir as suas histórias. Nem sempre os olhares eram maus e também recebi sorrisos de estranhos que com o olhar me transmitiam que ia correr tudo bem. Nunca me hei de esquecer do abraço que recebi da senhora do mercado onde comprei o musgo para o presépio. Foi um gesto de carinho legítimo que, numa altura em que estamos tão fragilizados, nos aquece o coração. Acima de tudo é bom receber alguma empatia por quem se cruza connosco.

E por favor, quando encontrarem alguém com cancro contem-lhe histórias com um final feliz (é que falarem-nos daquela vizinha que morreu ao fim de 6 meses de diagnóstico não é propriamente aquilo que queremos ouvir)!

 

Aos 36 anos o cancro achou que me vinha puxar o tapete. Lamento excelentíssimo, escolheste a pessoa errada! Aqui quem puxa tapetes sou eu! – Esta frase pode ler-se na descrição do seu projecto O meu cancro dava um blog. De que forma é que este blog a tem auxiliado a si e a quem a acompanha?

 

Este blog começou como uma brincadeira. No início até tinha como plano fazer algo um pouco mais técnico, com explicações sobre a doença pois, devido à minha formação académica tenho um entendimento do cancro um pouco diferente de muitos dos pacientes. Porém a escrita tomou outro rumo e comecei a perceber que escrever o que me ia na alma (o que às vezes tem tendência a ir para o disparate) funcionava um pouco como uma terapia para mim. Ao escrever exteriorizava os meus sentimentos e sentia-me sempre um pouco mais leve. Achei sempre que ia ser algo que os meus amigos e familiares iriam acompanhar para estar a par do meu tratamento e pouco mais. Mas surpreendentemente comecei a ver o projeto a crescer. Ainda fico estupefacta quando vejo que o blog tem mais de 1200 seguidores e alguns posts foram visualizados por mais 3000 pessoas. E o melhor de tudo é receber mensagens ou comentários de pessoas que estão a passar pela mesma provação e que de alguma forma se identificam com o que escrevo. A maior realização (e o que me faz continuar a escrever e a manter o blog) é perceber que faço alguém do outro lado sorrir e sentir-se menos só.

 

 

Hoje assinala-se o Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama. Que conselho(s) gostaria de dar sobre a prevenção desta doença?

 

A prevenção é sem dúvida a nossa maior arma. Façam o auto-exame de palpação da mama e os exames anuais de rotina. Conheçam o vosso corpo. Caso detectem algo anormal não tenham medo de ir logo ao médico. O medo é o nosso maior inimigo. Ter um diagnóstico de cancro faz desabar o nosso mundo mas, quando mais precoce for esse diagnóstico, maior a taxa de sucesso de tratamento.

Tenham hábitos de vida saudáveis e acima de tudo sejam felizes.

 

 

Bibliografia

Direção-Geral da Saúde (2016). A Saúde dos Portugueses 2016 (pp. 30-34, 95-107). Portugal: Direção-Geral da Saúde

Direção-Geral da Saúde (2014). Plano Nacional para as Doenças Oncológicas – Relatório 2013: Avaliação e Monitorização dos Rastreios Oncológicos Organizados de Base Populacional de Portugal Continental (pp. 6-7, 40-43). Portugal: Direção-Geral da Saúde

Instituto Nacional de Estatística (2014). Estatísticas de Saúde 2014 (edição 2016, p. 147). Portugal: Instituto Nacional de Estatística, I.P.

Liga Portuguesa Contra o Cancro (s.d.) Cancro da Mama. Consultado em 23 de Outubro, 2017, em: https://www.ligacontracancro.pt/cancro-da-mama/

 

 

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