Causa Solidária: Um polvo para um prematuro e a história de duas mães guerreiras

Em Fevereiro de 2013 foi criado o Danish Octo Project, quando um grupo de voluntários começou a costurar polvos em croché com o intuito de os doar para bebés prematuros em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN).


Na sequência desta iniciativa, muitos corações bons e muitas mãos voluntárias têm-se multiplicado para criar estes pequenos amiguinhos em diferentes países, tendo finalmente chegado a Portugal. São diversos os grupos mais ou menos organizados que vão surgindo, com especial destaque para o Projeto Migos, que se constituiu como Associação em Abril de 2017.


Muito já se tem vindo a falar sobre este tema, e começam a proliferar notícias nas redes sociais e na televisão, dando conta dos benefícios destes polvinhos. Hoje, venho falar-vos do outro lado por detrás destas iniciativas: de duas mães fantásticas que tive a oportunidade de conhecer algures em Março deste ano, no seguimento da notícia que publicámos aqui , onde dávamos a conhecer esta causa solidária.


A Clarisse Carriço e a Susana Paixão são mães, e um acaso da vida - a prematuridade dos seus filhos – levou-as ao encontro uma da outra e a uma feliz união em torno deste movimento.

Tudo começou com um link de uma reportagem sobre os benefícios dos polvos de croché junto dos prematuros, que a enfermeira Marta Felix me enviou. Já faço croché há algum tempo e desde que o Duarte nasceu - e veio para cá (depois de ser transferido de Évora) - que me “refugiei” no croché para ajudar a passar o tempo na UCIN. As enfermeiras começaram a dizer para fazer gorrinhos e botinhas, até que tomei conhecimento do projecto e decidi experimentar fazer um polvo para o Duarte – e assim nasceu o Lula! (Susana)

O Lula ainda era um polvo sem tentáculos quando a Clarisse abordou a Susana, porque também ela gostava de fazer croché e tinha em mente fazer bonequinhas para a sua bebé. Depois de pesquisar sobre os polvos, percebeu que existiam vários grupos pela Europa que os faziam e doavam a hospitais, o que fez com que rapidamente a ideia das bonecas ficasse para segundo plano, para abraçar a ideia de criarem juntas O Gang do Polvo.


Sempre achei que quando passamos por algum momento menos bom na nossa vida, temos de saber dar a volta e em vez de vivermos num ciclo em nós mesmos e na nossa dor devemos olhar para tudo com amor e aceitação. Deixar cair as lágrimas, respirar fundo e porque não dar amor? Porque não envolver um grupo de mães e dar uns polvinhos de amor para as crianças que por aqui passam? Partilhei a ideia com a Susana e foi assim que surgiu o grupo O Gang do Polvo. (Clarisse)

O dia-a-dia numa Unidade de Neonatologia, aos olhos das Mães
 

Clarisse, mãe da Bebé Filipa
A Clarisse estava grávida de 6 meses quando se suspeitou de que a bebé poderia ter atrésia do esófago. Depois de uma gravidez complicada, com observações regulares nas urgências, em consultas e tratamentos, a Filipa nasceu no dia 20 de Janeiro com quase 37 semanas. O diagnóstico de atrésia esofágica confirmou-se e, conforme aviso prévio, a bebé foi transferida para o Hospital Dona Estefânia para ser operada.

 

O meu dia-a-dia começa numa corrida, tirar leite, comer, vestir, apanhar transportes, tentar sempre estar o mais rápido possível no hospital para apanhar o banho. Os banhos começam cedo, entre as 9h e as 10h. Damos banho, massagem, trocamos a fralda, damos colinho, tendo sempre a ajuda de enfermeiras e auxiliares.


Com o passar dos meses, como mãe que passa dia após dia num ambiente hospitalar, começo a sentir falta de força e um cansaço extremo. Sendo o foco sempre a Filipa, esqueci-me que também preciso de descansar, que também preciso de comer adequadamente, que preciso também de alguém que cuide de mim. Mas continuei numa roda viva, sempre até atingir o limite, até o corpo não conseguir acordar e chegar a tempo do banho e me sentir culpada por isso, até sair pelas 20h da noite com um sentimento de não a querer deixar... muitos dias com lágrimas quando não a vejo tão confortável quanto gostaria.


Emocionalmente e fisicamente é muito desgastante e as leis que temos neste país são uma parvoíce. Os pais nestas situações deviam permanecer mais tempo ao lado da mãe. Uma mãe que vê o seu bebé internado, que fica dias, semanas, meses em sofrimento, muitas vezes deslocada da sua residência, que sofre em silêncio porque o marido teve de voltar ao trabalho. Não é muito difícil ir completamente abaixo. Desejo, que todo o meu cansaço seja das birras dela durante a noite e durante o dia, que a possa levar à rua para ver o azul do céu e o verde do campo, que a possa ver dormir descansada na caminha dela sem necessidade de tirar sangue, de repor cateter, de aspirar. Não vejo a hora de a ter em casa para rodopiar com ela nos braços, sem fios.


Susana, mãe do Bebé Duarte
Depois de uma gravidez muito desejada e muito planeada, o Duarte nasceu no dia 14 de Dezembro de 2016, no Hospital do Espírito Santo, em Évora. Tinha 32 semanas de gestação e 1360gr.


Embora os papás já soubessem que o Duarte, após o nascimento, teria que ser transferido para Lisboa, para o Hospital Dona Estefânia, não esperavam que tal acontecesse tão cedo. Uma atrésia duodenal diagnosticada às 20 semanas indicava a necessidade de cirurgia. O que não sabíamos era que vinha também uma atrésia esofágica como brinde… e mais uma fístula na traqueia – refere Susana. De uma consulta hospitalar por sinais de pré-eclâmpsia, seguiu-se o internamento e a ruptura inesperada da bolsa no dia seguinte.
 

O universo dos bebés prematuros não me era de todo desconhecido uma vez que um dos avôs do Duarte é neonatologista… Mas uma coisa é ouvir falar de bebés pequeninos, que nascem antes do tempo – tudo sem entrar em grandes pormenores – e outra é vermo-nos com um bebé de pouco mais de um quilo nos braços, cheio de tubos, ventilado, em que precisamos da ajuda das enfermeiras para o podermos pegar (o que nem sempre é oportuno…). Só consegui pegar no Duarte ao colo já ele tinha 15 dias, era o nosso “pacotinho”, como uma grande amiga – a Tia Mafalda – lhe chamava.


O nosso dia-a-dia mudou ainda mais do que o de uma família que tenha um bebé na UCIN e que viva na zona da grande Lisboa. Vivemos em Borba, distrito de Évora, e a nossa vida mudou completamente uma vez que tivemos que vir, de armas e bagagens, para cá.


O nosso dia-a-dia na UCIN começa com o banho. A higiene é feita diariamente, por volta das 9h30, e os pais são incentivados a participar. Como o Duarte tem cateter central e tinha, antes de cirurgia, aspiração de baixa pressão contínua não pode tomar banho numa banheira como os outros bebés. O banho era dado na incubadora e mais tarde passou a ser dado no berço. Para além do banho, os pais também mudam a fralda, tiram a temperatura… Isto tudo depende de caso para caso. Ao início não éramos nós que fazíamos essas tarefas, mas a pouco e pouco, e com a supervisão das queridas enfermeiras, fomos ficando mais autónomos.


Foi na UCIN que fiquei a conhecer – e pratiquei enquanto deu – o método canguru. Este método consiste em estabelecer contacto pele com pele do bebé prematuro com os pais, o que traz muitos benefícios para o bebé, tanto na parte respiratória, como cardíaca – sentem-se em contacto com os pais e ficam mais tranquilos e calminhos!


Em jeito de resumo, a UCIN e toda a equipa que a integra – enfermeiras, médicos, auxiliares, equipa de limpeza e os outros pais – passam a ser a nossa primeira casa e a nossa família! Ganhamos amizades para a vida e tias para os nossos meninos! Nem tudo tem que ser negativo numa situação como a nossa. Há que aproveitar o melhor que as situações difíceis têm para nos dar e agradecer termo-nos cruzado com pessoas maravilhosas como as que conhecemos na Unidade.


Estas mães guerreiras conheceram-se no Hospital Dona Estefânia e criaram O Gang do Polvo, um grupo de amigas - e de amigas de amigas -, que foi crescendo e que em pouco mais de uma semana contava com mais de 100 membros. São voluntárias, de diferentes zonas do país, pessoas com vontade de pôr as mãos nas linhas e nas agulhas. Nasceram já polvos lindos, com personalidades e nomes, sempre na esperança de que estes bonecos possam ajudar a tranquilizar bebés como a Filipa e o Duarte, e a estabilizar os seus sinais vitais.

 

E se o objectivo inicial era conseguir alguns exemplares, o grupo superou todas as expectativas e entregou, em 19 de Maio de 2017, 52 polvos no Hospital Dona Estefânia.
 

É bom sentir o amor das pessoas nestes pequenos gestos, de ver este projeto crescer e perceber que podemos mudar o mundo de alguém para melhor. (Clarisse)


Quem passa por situações como a nossa percebe o bem que sabe chegarmos a uma Unidade de Cuidados Intensivos onde temos os nossos maiores tesouros, rodeados de fios, tubos, máquinas, apitos… e vê-los abraçados a um simpático amiguinho de croché! São pequenos gestos que podem fazer a diferença entre um dia mau e um dia um pouco melhor! (Susana)

 

 

Partilhar no Facebook
Please reload

Please reload

Arquivos
Siga-nos
  • White Facebook Icon

Segue-nos nas

Redes Sociais

acompanha as nossas notícias, eventos e ofertas especiais