Gosto mais de ti do que de chocolate #2: A varinha mágica

 

Numa tarde soalheira, fomos passear até ao parque municipal. No meio de pinheiros, pinhas e pinhões, o meu filho mais velho (nessa altura com 4 anos), pegou num pau e, bramindo-o no ar, gritou entusiasmado: “Olha mãe, tenho uma espada!”

 

Em poucos segundos várias preocupações “pipocaram” nesta cabeça.

 

“Espadas? Mas, desde quando é que ele começou a interessar-se por espadas? Não sei se gosto disto… Parece-me violento, não sei. E se ele começa por aí a bater nas pessoas que passam por nós?! Ou se começa a correr e cai, ainda vaza um olho!”

 

Garanto-vos que foram necessários uns 2 segundos e meio para conseguir formular todas estas hipóteses. Um verdadeiro brainstorming.

 

Depois das preocupações, vieram as pseudossoluções. E foi assim que tentei dar a volta à questão…

"Ó Mi, isso não me parece uma espada! Parece-me uma… uma varinha mágica! É isso! És um feiticeiro!"

Olhou-me curioso e esboçou um sorriso.

“Tenho uma varinha mágica! Vê-me a fazer magia, mãe!”

Apontou para um pinheiro e lançou o feitiço.

“Desejo, desejo, que te transformes num elefante!”

Nada… Repetiu o desejo. Nada…

O sorriso desapareceu mas, manteve-se determinado. Avançou até uma pedra enorme e voltou a apontar a “varinha”.

“Desejo, desejo, que te transformes numa árvore!”

Lá deve ter pensado que o pinheiro não saberia o que é um elefante mas, aquela pedra conhecia bem o que é uma árvore. Mesmo assim, nada…

Nem sorriso, nem olhar determinado. Apenas desilusão…

Mas, de repente, vejo novamente o brilho nos olhos e um sorriso bem rasgado.

“Já sei! Desejo, desejo… (diz, enquanto olha, fixamente para a “varinha”), que esta varinha se transforme numa ESPADA! Yaaaah!”

E correu, esbaforido, com a sua espada recém-transformada, na mão. Feliz da vida!

E foi nesse momento, em que me permiti observar o meu filho, sem julgamentos, com compaixão e mente de principiante, que percebi.

Quantas vezes, como mãe e pai, te deixaste convencer a escolher a varinha mágica?

 

Quando não tiveste o parto que querias, porque te levaram a acreditar que o que tiveste era a única opção, entregando-te a varinha mágica do se não fosse assim não tinhas conseguido parir o teu filho...

 

Quando minaram a tua confiança e o teu instinto, fazendo-te acreditar que o teu leite era fraco ou insuficiente, entregando-te uma varinha mágica em pó, dentro de uma lata...

 

Quando te contaram histórias de terror de filhos que não queriam dormir na sua cama, por quererem dormir encostados a nós, cheirando o nosso cheiro, sentindo o nosso calor, ouvindo o nosso coração e adormecer nos nossos braços, entregando-te a varinha mágica do dar colo estraga, deixa-os chorar...

 

Quando te fazem o reparo de que o teu filho não devia estar a meter aqueles pedaços de comida na boca, nunca se viu um bebé a comer outra coisa que não fosse comida passada, entregando a varinha mágica do certinho que vai morrer engasgado...

 

Quando te dizem que não podes ser uma mãe trabalhadora, com projetos profissionais e pessoais e que cuida de si, entregando-te a varinha mágica do esquece-te de ti, vive para os outros...

 

Quando te perguntam até quando vais dar de mamar aos teus filhos, onde já se viu uma criança desse tamanho a mamar, que o teu leite deve ser mais água que outra coisa, entregando-te a varinha mágica do desmama a criança e dá-lhe leite duma vaca...

 

Quando te dizem que tens de mostrar aos teus filhos quem manda e dar-lhes umas palmadas para os meteres no sítio, se não nunca te vão respeitar, entregando-te a varinha mágica do eles fazem o que eu mando, a bem ou a mal...

 

Quando veem a comida que sobrou no prato do teu filho e te incitam a obrigá-lo a comer, entregando-te a varinha mágica do assim vai ser um enfezado, se vem uma doença ele desaparece...

 

Quando te criticam pelo teu filho ter pouca roupa, ou estar a correr ao vento ou a chapinar nas poças de água, entregando-te a varinha mágica do vai apanhar uma pneumonia...

 

Quando reclamam que a tua filha é uma mal-educada que nem um beijo e um abraço dá às pessoas, convencendo-te de que deves obrigá-la a beijar, abraçar, sentar-se nos colos, receber cócegas, dizer bom dia, boa tarde, boa noite, olá, adeus, como se de um boneco a pilhas se tratasse, entregando-te a varinha mágica das boas maneiras...

 

Quando os teus filhos começam a escola e te passam a mensagem de que todas as crianças são iguais, fazem igual, têm de aprender igual, e aquilo que está no programa, nem mais nem menos, da mesma forma, gostam das mesmas coisas e têm de se comportar de determinada maneira,  e se o teu não for assim é porque não é normal, entregando-te a varinha mágica da fábrica de chouriços....

 

Eu podia continuar... mas acho que já passei a ideia.

 

E, agora, eu pergunto-te:

Tu, deixas-te levar pelas expectativas dos outros ou pelas tuas intenções, como pai ou mãe?

Tu, vives com medo ou com amor?

Tu, escolhes espada ou deixas que te convençam a escolher a varinha mágica?

 

Por vezes, em momentos em que sinto medo, ainda me observo a pegar na varinha mágica...

Mas, cada vez mais, este medo é substituído pelo amor, pela confiança, pelos momentos plenos de conexão, e aí vejo o meu filho, feliz, a brincar com a sua espada.

 

 

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