É bom saber #2: Bebé - sinónimo de noites mal dormidas?

As perturbações do sono são comuns em bebés e crianças. São frequentemente vistas como “normais” ou como uma fatalidade (quem nunca ouviu dizer a um casal à espera do primeiro filho “aproveitem para dormir agora. Depois de nascer acabaram-se as noites descansadas!”), mas não é obrigatório que tenhamos de ter anos de noites mal dormidas por causa dos nossos filhos. Por um lado, porque há bebés que desde cedo adormecem bem e assim permanecem durante longos períodos à noite, sem acordar os pais (estes são os pais sortudos, com bebés invejados!); por outro porque mesmo aqueles que têm dificuldade em adormecer e/ou mantêm despertares noturnos frequentes, em que exigem a presença dos pais para voltar a dormir, podem ser educados e habituados a melhorar os seus padrões de sono.

Há alguns diagnósticos de perturbações do sono descritos em pediatria, sendo que os mais comuns serão sleep onset association disorder [alteração associada ao início do sono] e limit setting sleep disorder [alteração do sono por falta de rotinas ou limites mal estabelecidos]. Esta última tem sido estudada pela equipa de um médico espanhol, Eduard Estivill, de quem muitos pais já ouviram falar, já que é referido em vários blogs sobre puericultura. Estivill, além de ser um estudioso do sono e das suas alterações em todas as idades, descreveu um método (conhecido como “Método Estivill”) que pretende ajudar os pais a educar os seus filhos de forma a melhorar os seus hábitos de sono. Ao melhorarmos o sono dos bebés/crianças, melhoramos também o sono dos seus pais e de outros familiares com quem estas vivam, pelo que considero que, numa família em que o bebé não dorme bem é fundamental ajudá-lo a melhorar o seu sono. É sobre o método Estivill que vou falar.

 

Sou mãe. E sou médica de família. A minha profissão traz-me alguns conhecimentos sobre “bebés” mas a minha experiência sobre este tema viu-se ampliada em larga escala com a minha própria vivência da parentalidade. O Método de Estivill foi-me apresentado quando a minha filha tinha 5 meses. Demorava a adormecer (ao colo) e acordava duas vezes por noite para mamar (embora não tivesse necessidade destas duas refeições – tinha uma excelente evolução do peso! – mas era a única forma de voltar a dormir). A aproximação do meu regresso ao trabalho foi o que me levou a querer alterar o padrão de sono da minha filha – e o meu!

 

Assim, com o reforço do sucesso que a minha amiga experienciou, com os dois filhos, eu e o meu marido comprámos o livro “O Método Estivill” e estudámo-lo. Ambos concordávamos com o que era referido e com o método proposto. Concordámos que aquele método serviria para nós, e que nos manteríamos firmes na sua implementação. E assim, num fim de semana (para que o meu marido também estivesse disponível para perder algum tempo do seu sono), pusemo-lo em prática. É importante que seja um trabalho em equipa e que ambos estejamos convencidos em levá-lo até ao fim.

 

Para quem não conhece este método, e de uma forma resumida (e muito redutora!) consiste em criar um hábito na criança – o de adormecer sem a presença dos pais ou de qualquer outro elemento que não possa estar presente durante toda a noite. Ao aprender a adormecer sozinha (nas sestas e à noite), conseguirá, quando acordar a meio da noite, voltar a adormecer sem exigir a presença dos pais (sem os chamar, ou reclamar – chorando). Assim, deve-se colocar a criança na cama, e deixá-la chamar os pais/manifestar o seu desagrado e sono (chorando) sem que estes apareçam de imediato. Um dos pais pode ir ter com ela, em intervalos de tempo progressivamente maiores, estando lá apenas alguns segundos, e voltando a sair do quarto – para que esta se habitue a, por um lado, adormecer sem a sua presença, e por outro a perceber que os pais voltam sempre, enquanto chorar, mas não imediatamente! – passado algum tempo. Assim, não se sente insegura – os pais hão de voltar! – e ao mesmo tempo torna-se independente destes para conseguir adormecer. Caso a criança acorde durante a noite, devemos ter a mesma conduta – não ir lá imediatamente, mas ir indo visitá-la, para que saiba que não está abandonada, enquanto não voltar a adormecer. Pode parecer um método “cruel”, deixar uma criança a chorar sem lhe pegar ao colo para a acalmar. Mas será que mantê-la dependente de nós para adormecer é a melhor alternativa? Até que idade? E se vier a ter irmãos e esta atenção não lhe puder ser dispensada? E se for para um infantário/ama, onde poderá não ter este colinho sempre que precisa de dormir?

 

Acredito que da mesma forma que nos esforçamos por educar as crianças, negando-lhes certas coisas (em que respondem a chorar), ensinando-lhes o que nos parece correto, ou ensinamos os nossos filhos a comer com talheres e sentados, tal como fomos ensinados, também podemos ensiná-los a adormecer e tirar o melhor proveito possível de uma noite de sono! Penso que o que nos limita é uma questão cultural e educacional – sempre vimos os pais a embalar os seus filhos para adormecerem, a chegarem ao emprego de olheiras explicando que foi mais uma noite terrível porque o filho não os deixou dormir, a dormirem no quarto dos filhos (ou com os filhos nas suas camas) porque de outra forma não conseguiriam dormir… Mas se tentamos ser nós a ditar as regras em todas as outras questões da vida dos nossos filhos, porque temos de ceder quanto aos hábitos de sono?

 

Não acredito que haja apenas uma forma de regular o sono das crianças, nem que o Método Estivill fosse o único que resultaria connosco. Acredito, sim, que devemos procurar um método no qual acreditemos, e que nos mantenhamos firmes em segui-lo. Os hábitos ensinam-se! Como o próprio Estivill exemplifica, os europeus estão habituados a sentar-se à mesa e comer com talheres. Noutras culturas o hábito é sentar-se no chão e comer com pauzinhos ou com as mãos. Nenhuma forma está errada, e todas servem o mesmo fim: alimentação. E as diferenças resultam do facto de em cada cultura os indivíduos serem habituados de uma maneira diferente. Então porque não havemos de ensinar os nossos filhos a adormecer e dormir de uma forma autónoma e tranquila?

Voltando à minha experiência, acreditem que não tenho um coração de ferro e que me custou ouvi-la chorar sem ir lá de imediato. Mas percebi que a minha filha não se manifestava “zangada” ou “sentida” connosco quando voltávamos uns minutos depois de termos saído do quarto e a termos deixado na cama a chorar. Mas a experiência com o Método Estivill revelou-se muito positiva. Em quatro dias a minha filha, de seis meses, tinha aprendido a adormecer sozinha quer no início do sono (nas sestas e à noite) quer durante o sono da noite, dormindo 8 a 10h seguidas.

 

Na minha visão de médica, reconheço o impacto de sonos não satisfatórios quer para o bebé/criança quer para os seus pais e conviventes, sendo que o perfil de sono dos bebés, quando não satisfatório para os pais, é um tema recorrente nas consultas. Noites mal dormidas por vezes condicionam nos pais dificuldade na sua atividade laboral, na vida de casal e na satisfação pessoal.

 

Na minha visão de mãe, vejo este como um método eficaz, que se traduziu num grande sucesso na melhoria do sono em nossa casa.

 

Reforço o que mencionei acima: não acredito que esta seja uma solução universal. Mas que fiquei fã, fiquei!

 

 

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